quinta-feira, 14 de maio de 2009

Absurdos Inesperados

Estava pensando sobre o que escrever nesta semana, e eis que na quarta-feira à noite eu recebo um panfleto de um grupo de alunas da USC, elas apresentavam um seminário sobre ética do embrião. Resumindo, esse panfleto era do Hemonúcleo do Hospital de Base de Bauru, em parceria com a IESB, sobre como se tornar um doador de sangue. Tudo normal. Tudo nos padrões.
Comecei a ler e notei algo estranho, na verdade, bem estranho. Havia um tópico que dizia: “não ter hábitos homossexuais e bissexuais”. Grifei. E esperei. Fui para casa e, inconformada, fui pesquisar no “grande oráculo” moderno, o Google. Descobri que essa mesma frase maldosa, criminosa e preconceituosa está em vários sites, matérias de jornais e informativos de todo o país. Do Acre ao Rio Grande do Sul.
Me pergunto: quando este informativo foi escrito? Quem o fez? Será que ninguém se atentou para o fato de que esta frase enraíza o preconceito? Em vez de esclarecer, esse tipo de material – que segue a linha: “O que você deve saber antes de doar sangue” – serve para mitificar ainda mais a sociedade. Simplesmente porque essa informação não expressa a verdade. Ela é falsa.
Analisando. Como um governo democrático não tomou conhecimento da circulação desta informação? Acho que por falta de atenção. Não há diferença biológica entre gays, lésbicas ou simpatizantes. Heterossexuais não têm sangue “melhor”. Sangue é sangue. Na hora que você está em um leito de hospital, precisando receber sangue, certamente não perguntará se aquele sangue é de algum gay.
Só para constar, não existem mais os “grupos de risco”. Hoje em dia, todos nós estamos em risco. Na porcentagem, mulheres casadas com mais de cinqüenta anos estão entre os novos portadores do vírus do HIV.
Ainda analisando. Como assim ter “hábitos” homossexuais e bissexuais? Então podemos concluir que ser gay é um hábito? Nós temos o hábito de dormir tarde, temos o hábito de usar jeans, o hábito de não comer nada pela manhã. Agora, a orientação sexual não pode ser um hábito, tem que ser, no mínimo, uma escolha.
Concluindo. Frases como essas só servem para emburrecer o povo, isso é mitificar. É pegar um conceito já desmistificado e inserir um novo mito. Uma informação falsa como essa faz o mito do preconceito ganhar forças, e se instaura para sempre em nossa sociedade. Ele apenas se mutaciona. O preconceito pode vir, historicamente, de forma escancarada, como aconteceu na Alemanha nazista. A higienização de raças inferiores pelas superiores. Reflito sobre a Alemanha para ressaltar que não só judeus foram para os campos de concentração, mas também, ciganos e homossexuais (entre outros).
Essa foi a pior parte do informativo, a mais repulsiva e mentirosa. Mas não parava por ai. Nos tópicos seguiam: “Não ter hábitos promíscuos” e “não ser usuário de drogas”. Moralmente e legalmente condenáveis. Contudo, hábitos promíscuos remetem a “mocinha (o) que sai com todo mundo”. Ok. O que deveria ser explícito, no entanto, era a importância do uso de preservativo em TODAS as relações sexuais. Não importa se você transa com um homem e você é um homem. Não importa se é uma garota que gosta de transar com um monte de homens. O que importa é se nessas transas você está usando preservativo.
O mesmo com acontece com o tópico “não ser usuário de drogas”. É obvio que o uso de drogas não é algo bom, e nem legalmente permitido. Mas seguindo a linha de desmistificação, seria importante ressaltar neste tópico: “não compartilhar seringas”. Porque o objetivo do informativo é pré-selecionar o sangue coletado. Pensando assim, não só usuários de drogas que compartilham seringas terão o sangue descartado, mas também, aqueles pit-boys que compartilham seringas ao auto-injetar substâncias anabolizantes. O esclarecimento tem que prevalecer em uma sociedade democrática. Toda a forma de preconceito é repulsiva, não podemos permitir a propagação deste material impunemente, pois no governo do povo, o povo deve agir.

Moda: democratização e controle social

Outro dia estava pensando um pouco como as nossas roupas podem influenciar as nossas vidas, e cheguei a conclusão de que o nosso vestuário, o jeito como nos vestimos, pode ser considerado tanto como um instrumento de realce de si mesmo quanto uma forma de controle social. Porque as roupas da moda, antigamente e ainda hoje, podem ser usadas para elevar o capital social do indivíduo ou para limitar as suas funções sociais.
Durante o século XIX as roupas da moda eram acessíveis principalmente às classes média e alta, hoje em dia, com a democratização da moda isso se expandiu para todas as classes sociais, a moda está em todos os lugares, basta ter o chamado estilo e compor o seu look.
É claro que a moda como conceito é acessível a todos, mas qualitativamente não, sabemos que as roupas feitas em larga escala não possuem a mesma qualidade de uma peça única, porque há por trás o interesse “nobre” no lucro. E se usam tecidos de qualidade não sobra tanta margem para lucro. Marx já falara muito bem sobre isso no livro O Capital.
As tecnologias também desempenham o seu papel quando o assunto é democratização da moda, já que simplificam a produção de roupas, tanto em casa como em fábricas. Um exemplo deste fenômeno tecnológico são as máquinas de costura modernas que começaram a ser comercializadas (quase sempre financiadas) nos Estados Unidos no final do século XIX, e as mulheres puderam fazer as suas próprias roupas usando moldes oferecidos pelas próprias empresas que fabricavam essas máquinas de costura. Esse foi um fator decisivo e contribuiu para a democratização final das roupas. Todo esse empenho da mulher do século XIX em se parecer socialmente de uma classe mais elevada demonstra a importância simbólica do vestuário e como ele pode ser uma ferramenta de realce de si mesmo, ainda nos dias de hoje.
Outro ponto de destaque é o uso de uniformes, que desde o século XIX representa um instrumento de controle social, imposto principalmente aos trabalhadores provenientes da classe operária. Os uniformes servem como lembretes úteis de que o conteúdo da comunicação interpessoal nos locais em que são usados deveria limitar-se a informações sobre a tarefa desempenhada, reforçando a separação entre classes sociais e mesmo entre empregador e empregado numa mesma casa.
Muitas empresas especializadas em uniformes utilizam slogans para mistificar o uso de uniformes como sendo algo enaltecedor, o que não o é. Facilmente podemos encontrar por aí empresas que dizem: “Usar uniformes significa mais do que praticidade. É também vestir a camisa da empresa e valorizar o local de trabalho, aumentando a motivação e a auto-estima da equipe, melhorando o seu rendimento”. Rendimento! Claro, o que importa é a imagem da empresa somada ao rendimento da empresa, sempre o que importa são os números.
Agora, eu não consigo entender como os uniformes motivam a auto-estima da equipe. Eu não me sentiria motivada em trabalhar em uma empresa em que todos se vestem iguais, e são iguais, como robôs. É claro que em certas profissões o uso de uniformes é necessário para sinalizar a sua função, como no caso de bombeiros e de policiais. Mas expandir o uso de uniformes para todos os âmbitos da linha de produção e acreditar em slogans como “Muito mais do que uniformes: uma opção para quem gosta do que faz”. Aí já é sacanagem! Desde quando usar o uniforme da empresa é uma opção? É na verdade uma imposição.
Os códigos de vestuário constituem um meio sutil de recordar aos trabalhadores a necessidade de se conformar às normas e aos valores das culturas organizacionais. Ou seja, esses códigos de vestuário são normas implícitas, que rapidamente são assimiladas pela sociedade. Baseia-se na idéia de que estar bem-vestido é uma indicação de respeitabilidade, de status.
Assim, moda e sociedade andam juntas e discutem política, e nós, reles mortais, mais uma vez somos marionetes de um jogo social muito maior.

Filosofar é pensar!

Desde que decidi fazer faculdade de filosofia as mais diversas pessoas chegaram até mim e perguntaram: Mas você vai viver do que? Tem campo de trabalho? Vai ser professora? O que se faz com filosofia?
A partir destes questionamentos externos a dúvida brotou até em mim, que estava tão segura do que queria. E comecei, eu mesma, a pensar sobre essa tal de Filosofia. Se realmente valia a pena terminar a graduação. Eis que agora não só terminei a graduação, como já estou terminando um mestrado e sou, enfim, professora, como muitos pensaram que seria o meu “fim”.
Agora com essa oportunidade de escrever a vocês, leitores, eu gostaria de desmistificar, ao menos um pouco, o que é a Filosofia. E para isso nada melhor do que começar com problematizações, com questões.
Portanto, o que é essa tal de Filosofia? Para que serve? O que fazemos com ela? Como usamos/aplicamos a filosofia no nosso dia a dia? Tantas perguntas sem respostas, pois “filosofia” não pode ser e nunca será um produto, um bem de consumo. Não pegamos “filosofia”, não compramos “filosofia” no supermercado, não comemos “filosofia”.
A filosofia é estritamente abstrata. É coisa dos gregos antigos. E para espanto de muitos, filosofia mesmo, só no Ocidente!
O pensamento filosófico surge quando o homem começa a se perguntar o porquê das coisas, da natureza e da vida prática. A partir daí o tal pensamento filosófico vai se estruturando, na medida na qual o homem se pergunta o porquê de sua própria existência, e tenta dar respostas a esse questionamento.
Muitas coisas que achamos serem modernas ou contemporâneas, já haviam sido pensadas pelos gregos antigos, como por exemplo, o átomo.
O nosso modo de agir é a soma da nossa tradição, do nosso passado, da História.
É certo que alguns filósofos influenciaram em maior ou menor intensidade na história, e isso se dá exatamente pela história, é ela que escolherá quem será lembrado no futuro. Mesmo quem pense não estar sendo influenciado pelo pensamento filosófico está errado, já que desde muito tempo atrás tal pensamento emana por toda a história os seus resultados.
O pensar racional, a formulação de questionamentos e reflexões acerca de um determinado assunto pode ser uma construção filosófica. O filósofo, ao contrário do que muito se pensa por ai, não é aquele que tem uma formação acadêmica obrigatoriamente. É filosofo quem consegue articular sobre vários assuntos que são importantes para a sua essência, para a compreensão de sua existência no mundo. Filosofar é, grosso modo, ter um pensamento racional, estruturado sobre os mais diversos assuntos que permeiam a existência em geral. É saber articular. Pensar.
Hoje percebemos que a filosofia está na “moda”, e tudo o que está em evidência corre riscos. O risco que a filosofia está correndo é da sua banalização e da massificação do seu potencial emancipatório, pelos livros de auto-ajuda que lotam as prateleiras das livrarias e tem como promessa sanar a dor dos problemas da vida moderna, do indivíduo dilacerado que não se compreende mais. Resta-nos agora juntar os cacos da História e, a partir do pensamento racional e filosófico, tentar se recompor.

sexta-feira, 10 de abril de 2009

I wanna die

Adam Green

Ultimamente tenho ouvido...

ouvido ou escutado?

nascido, renascido ou morrido...
nao sei.

o tedio e a imcompreensao me consome...

esta tudo errado,

ele nao sabe o que faz.
eu nao sei o que faco.

non sense
insensatez

descontentamento

segunda-feira, 9 de março de 2009

A passagem da aura da obra de arte para a sua reprodutibilidade técnica

(Texto publicado no Jornal da Cidade de Bauru em 22/02/2009)
A partir das décadas de 1920 e 1930 começaram os estudos e a avaliação da cultura popular. Os fenômenos marcantes foram o advento do cinema, do rádio, a produção e o consumo em massa, a ascensão do fascismo e o amadurecimento das democracias liberais em alguns países. O fato da cultura tornar-se reproduzida infinitamente – graças ao desenvolvimentos tecnológicos – trouxe problemas consideráveis sobre arte e cultura na sociedade. Os pensadores da cultura de massa não consideram o cinema como arte, pois no seu processo de elaboração e exibição, o filme não possui a “aura” de uma obra de arte autêntica; nem pode ser cultura folk porque não se originam mais do “povo”.
Junto com a imprensa popular, o rádio e o cinema foram os primeiros meios de comunicação de massa tipicamente modernos e estiveram ligados aos regimes totalitários para o uso de propaganda, transmitindo a ideologia oficial do regime fascista porque permitiam o controle centralizado e alcançavam vasta audiência. Isso gerou receio e angústia por meio dos intelectuais que estudaram o crescimento da sociedade e da cultura de massa estimulando as discussões sobre tais temas.
Dentre estes intelectuais estava Walter Benjamin, tido por alguns como membro da conhecida “Escola de Frankfurt”, mas na verdade ele nunca se filiou, era considerado um “companheiro de viagem”. Benjamin escreveu um dos ensaios teóricos sobre arte popular mais lido no século XX: “A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica” (1936). Mas o que, afinal, ele afirmava neste ensaio?
Benjamin avalia à sua maneira, os efeitos da produção e do consumo de massa e da tecnologia moderna, sobre o status da obra de arte, assim como suas implicações às formas contemporâneas de arte popular e cultura popular. Segundo ele, a obra de arte, devido a sua original imersão em rituais e cerimônias religiosas, adquire uma espécie de “aura”, que atesta sua autoridade e imparidade, sua singularidade no tempo e espaço. Estabelecendo-se no centro de práticas religiosas, a obra de arte adquiriu uma função ritualística, e sua aura é associada à religião até a Renascença. Nesse período iniciou-se a luta pela autonomia artística que tentou provar que a obra de arte era única em seu próprio direito, independente de qualquer consideração religiosa e que ser um artista era uma vocação singular, privilegiada através do conhecimento da verdade da existência humana. Essas idéias reforçaram-se no movimento da "arte pela arte", de meados ao final do século XIX. Foi uma reação à emergência da industrialização capitalista e da comercialização da cultura e as ameaças que ambas representavam à aura da obra de arte.
São esses efeitos da época da reprodutibilidade técnica que Benjamin aborda no ensaio em questão. Seu primeiro exemplo é a fotografia que permite uma grande variedade de cópias. Para ele, a técnica da reprodução destaca do domínio da tradição o objeto reproduzido na medida em que ela multiplica a reprodução, substitui a existência única da obra por uma existência serial. E, na medida em que essa técnica permite à reprodução vir ao encontro do espectador, em todas as situações, ela atualiza o objeto reproduzido. Esses dois processos resultam num violento abalo da tradição. E o seu agente mais poderoso é o cinema.
Mas isto não é condenável aos olhos de Benjamin. Ele aponta um lado positivo no cinema, apesar da obra de arte ter perdido a “aura” e a sua autonomia, ela tornou-se mais acessível, atingindo às massas. O valor de ritual passa para valor de exibição, a sociedade do espetáculo estava se delimitando. Outro fator positivo que se pode identificar com o cinema é que ele preparava as massas para a vida no mundo contemporâneo, na medida em que o espectador, através da montagem rápida e com cortes era “vacinado” contra as psicoses do mundo a sua volta. Assim, pela primeira vez, nas palavras de Benjamin, o cinema abriu as portas para o inconsciente ótico.
Juliana de Souza, mestranda em Filosofia pela Unesp de Marília e professora da USC. Atua nas áreas de Estética, Teoria Crítica, Ética e Filosofia Cotemporânea.

Verão

Eu gosto de amarelo. Mas não o amarelo-sol que invade as nossas casas dos dias quentes de março. Dizem: Estamos em “pleno verão”. Com certeza é pleno, em toda a sua temperatura elevada, que parece sugar nossas energias, levando-nos a um estado de embriaguez.

Estranhamento



Tudo me parece mais interessante do que a minha dissertação, nem as teclas me são familiares, a mira não é atraente, o sentido das palavras se desfaz. Pensar em mil coisas, coisas que são importantes que dão ânsia são, certamente, urgentes também. Contudo há coisas mais urgentes, como a minha vida acadêmica. A vida acadêmica é solitária e obscura, pelo menos para mim. Mesmo esse texto (?) que era para ser algo alegre, já toma ares taciturnos. Já quero me lamentar e sofrer, porque a vida é tão injusta, por que o porque do por que? Será o meu “eu lírico”, um eu lírico romântico? Daqueles do tipo dos jovens obscuros, como Álvares de Azevedo? Será que estou a procura de uma alcova? Ou apenas sou uma inconformada com a realidade existente, vigente e atual? Ou ainda, conscientizo-me de que essa reflexão me alerta como eu estou próxima da lírica surrealista e do espírito critico de Walter Benjamin? Acho mais louvável e próspero que eu realmente me identifique com a temática da pesquisa, fico com a terceira questão. Mas não sou arrogante para afirmar que sou algum tipo de Nadja, nem conheço Paris...Apenas me idenfico.