segunda-feira, 5 de outubro de 2009

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lembrei! ufaa! detesto quando não consigo lembrar das minhas próprias idéias e devaneios. era sobre a autenticidade das obras de arte. estava pensando que hoje customizamos os bens de consumo que podem se encaixar como arte. p. ex. um quadrinho pintado, comprado há um tempo. eu sei que o quadrinho - mesmo sendo pintado à mão - ele é feito em série, ele pode conter em potencia a autenticidade da obra, mas não tem, mas com o seu uso ele pode vir a ter uma certa autenticidade. O seu "ter o objeto que pode vir a ser obra de arte" é uma idéia interessante. Pensei em várias outras coisas que se relacionam. Bom, apenas pensei, apenas idéias.

sábado, 3 de outubro de 2009

Chegadas e partidas

Manicuras. Cabeleireiros. Homens. Mulheres. Dentista. Médicos. Amigos. Pessoas, enfim. Cachorros. Gatos, Amores, Roupas, Medidas, Filmes, Moda, Estilos, Rótulos, Empregos.
Tudo nasce, cresce e morre. Esta é a lei de que nada é para sempre. Nem o nosso planeta durará para sempre. Do jeito que nós, indivíduos perenes, estamos tratando mal dele, logo logo se vai.
As pessoas acham que tem controle de suas vidas, mas depois acabam descobrindo que tudo pode mudar num segundo. E por quê? Justamente pela lei de que todos nós partiremos, vamos para o Nada. Ou para o paraíso?
Se formos para o paraíso reforçaremos a hipótese de que tudo é cíclico, tudo se reduz à “chegadas e partidas”. Mas, isto seria muito idealismo. Mas para o Nada também é um tédio. Nada recompensador.
A vida é, às vezes, tão sofrida, temos que nos esforçar tanto para sobrevivermos. Você tem de trabalhar, ganhar dinheiro, senão você não vive no capitalismo. Temos que vender as nossas horas do dia, para poder consumir.
Tudo o que nos cerca são produtos, produtos do capital, no entanto, também produtos culturais. Estamos rodeamos por bens de consumo. Somos materialistas. Damos valor ao objeto, atribuímos fetiches aos objetos, cultuamos.
É engraçado. Apegamos-nos tanto às coisas. Queremos dar valor de eternidade a tudo. Sendo que nem nós somos eternos. Queremos contar, contabilizar, nos agarramos tanto às datas e aos números, parece que estamos em contagem regressiva sempre.
O ser humano é dual, corpo e alma. Vive tentando se explicar, se entender. Nunca houve tanta gente procurando análise, terapia, yoga, pilates, rpg, academia. Cada um na sua “vibe”, mas procurando se compreender.
Compreender: palavra difícil. O ser humano é um ser social. Mas também é um ser egoísta, individualista ao extremo, vaidoso, orgulho. Tem ira e raiva. Tem paixões e ideais. Portanto, como se compreender?
A cada dia queremos superar. Ser melhor é condição de sobrevivência no sistema econômico no qual estamos inseridos. Ser melhor para quê? Para termos mais dinheiro, para termos mais prestígio, para termos fama?
Um dia tudo acaba. E o dinheiro continua a reinar. O seu orgulho partiu junto com você, os seus bens materiais foram divididos (em meio à quase sempre brigas). E logo ninguém mais se lembrará da sua existência.
Temos que realizar as nossas potencialidades de forma sadia e bem humorada. A busca da felicidade não pode se transformar num sonho deixado para o dia de amanhã. Aí você se pergunta: O que é a felicidade?
Cara pálida: eu não sei o que é felicidade, ninguém sabe. Ao menos tente descobrir o que te faz feliz. Cada um tem a sua individualidade – normal, sadia –, e dentro desta individualidade você deve descobrir.
Eu tento ser feliz escrevendo, dando aulas, tentando desmistificar as coisas que nos cercam, mas também tenho consciência de que isso é uma gota mínima no oceano. E um dia tudo isso se vai... ou não.
Para expressar um pouco o meu egoísmo, meu individualismo, e a minha vontade de ir contra a todas as partidas definitivas, cito um trecho do poeta surrealista (que tem um pouco a ver com essa miscelânea de hoje).
“...O puro intervalo que, de mim a esse outrem que é um amigo, mede tudo que há entre nós, a interrupção de ser que não me autoriza jamais a dispor dele, nem de meu saber dele (fosse para louvá-lo) e que, longe de impedir qualquer comunicação, nos relacionava um ao outro na diferença e às vezes no silêncio da palavra”. Maurice Blanchot, A Amizade.

Existe uma alma boa?

Ar condicionado: dá-nos a artificialidade do tempo, da temperatura. Se está frio liga se o aquecedor, se está quente liga se o ar condicionado. Nunca estamos satisfeitos. Fui à São Paulo neste final de semana, o ônibus estava ligado na “Sibéria”, e lá fora o dia estava lindo, com temperatura confortável e agradável. Fui especialmente assistir a peça de Brecht, “A alma boa de Setsuan”, no Tuca.
Não sou especialista em teatro, nem assisti a muitas peças na minha vida, mas esta para mim é especial. Bertolt Brecht foi amigo de Walter Benjamin, teórico crítico, o qual eu dedico meus dias para terminar a infinita dissertação de mestrado.
O teatro brechtiniano tem como peculiaridade o lado didático. Ou seja, “ensinar” as massas, dar ensinamento às massas para que seja possível a tomada de consciência. Outra característica é o “metateatro” (semelhante à metalinguagem) – o teatro dentro do teatro – o recurso no qual o ator dialoga com o público, como se estivesse “fora” da peça. Com este recurso é feita a síntese do pensamento apresentado.
Aqui no Brasil, a peça foi encenada priorizando o humor já apresentado no texto original de Brecht. No entanto, não vemos um humor germânico, mas sim um humor bem característico nosso. Em alguns momentos os clichês e as piadas hodiernas tomam cena, deixando um pouco menor a importância do texto original. Em vários momentos esquece-se que a peça se passa na China antiga. Mas essa pode ter sido a intenção. Trazer ao máximo para os nossos dias. Para que os ensinamentos e sugestões de Brecht pudessem ser ainda mais atuais.
Hoje, ainda temos uma massa que não tem consciência de sua função na esfera social, e cada vez menos ligada aos valores e virtudes necessárias para uma vida em harmonia.
A alma boa, única no mundo, demonstra como está cada vez mais difícil ser um SER HUMANO BOM.
Uma das sugestões que “fica no ar”, é a de que num mundo capitalista o ser humano fica ainda mais tentado a corromper-se pelo caminho do mal. Para poder sobreviver no mundo do capital, da grana, temos que passar por cima de nossos valores e virtudes? Às vezes.
É sempre fácil condenar olhando de fora, mas um vendedor de água, que tem todas as características de uma alma boa, usa uma “canequinha” furada, ou seja, é desonesto. O seu argumento é de que o mundo é cruel, e se ele não proceder assim ele não sobreviverá.
O que eu mais gostei da peça é que a alma boa, que o Santíssimo tanto procura, estava na pele de uma mulher, e ainda por cima, prostituta! Imaginem a repercussão e o sentido de vanguarda (de estar à frente) deste texto!
Muitas são as mensagens deixadas por Brecht. Todos somos iguais, homens e mulheres, todos têm virtudes e vícios. Não é fácil ser “bonzinho” e muitos querem tirar proveito sempre. E posição social não quer dizer, absolutamente, nada!
A alma boa teve que se passar por outra pessoa para não se corromper. E ainda hoje, muitas vezes, temos que se passar por outra pessoa. Nesse mundo, onde a roda gira e você nunca sabe se estará por cima ou por baixo, temos que “vender” os nossos princípios, e nos moldar segundo o ritmo. Mas a que preço? Vale a pena? Acho que não. Sempre vale mais a pena sermos autênticos e conscientes dos nossos valores e papéis na sociedade.
Podemos até sair perdendo alguma grana, mas o que não tem preço é fazer o que na sua consciência você acha o certo. Caro leitor, não se venda, assuma os riscos e multiplique o bem!

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Pneu furou, acenda o farol, acenda o farol!

Caro leitor, tem dias que tudo parece acontecer com a gente. Sabe, não fatos isolados, mas uma avalanche de coisas. Isso nos dá uma sensação de estar fora do nosso corpo. Como se estivéssemos descolados do próprio corpo e nos projetássemos para fora. Pelo menos eu me sinto assim. Não sei você. Mas, com certeza, você, leitor, deve sentir alguma estranheza especifica quando seu dia está tomado por uma soma desenfreada de coisas.
Não sou dramática, sou realista. Temos muitas coisas para fazer, exigem-se muito de nós. Falo em nós, porque acredito que não estou “nessa” sozinha. Falo em nós, porque acredito que muitos têm esse sentimento. O sentimento de que 24 horas é pouco. O sentimento que o dia passa rápido demais.
A rapidez, a eficiência, a produtividade está sempre em primeiro plano. Temos metas, objetivos. Temos que gerar lucro, sempre. Mesmo no âmbito intelectual, ou até mesmo, artístico temos que seguir estas regras.
Eu vou ser bem sincera, quero mais sossego, uma casa no campo pelo menos por 15 dias no mês seria muito agradável. Sem o barulho dos motores, das buzinas, o caminhão (chatérrimo) do gás, e dos produtos de limpeza, se não me engano, Pamambi.
Quem não assistiu, assista, o clássico sempre atual “Tempos Modernos”, de Charles Chaplin, mesmo nos anos 1930, esse sentimento do rápido, do transitório e do efêmero já fazia parte do universo dos indivíduos. A alienação no trabalho, na vida, no lazer, na produção é fato consumado e permanente – pelo menos nesse sistema econômico.
Desde a revolução industrial estamos caminhando para o colapso do próprio homem, do próprio SER HUMANO. A subjugação do homem pelo próprio homem, ou seja, o domínio do homem por outro homem.
Mas eu estou fugindo do tema que eu propus para mim mesma nesta semana. Eu comecei falando em dias ruins, e acabei deixando no ar que todos os dias podem ser ruins no sistema capitalista, no qual poucos pensam e muitos executam, como na dicotomia execução-produção.
Mas o filosofar tem dessas coisas, a divagação é sempre um risco. Mas foi uma fuga consciente, porque esse tema da alienação e da nossa perda da identidade é realmente mais interessante, do que o meu dia ruim. Só porque no meio da madrugada o pneu do meu carro furou, o estepe estava murcho, e a bateria acabou, não é motivo de fúria e indignação para eu escrever aqui.
Temos que nos indignar sim pela nossa falta de tempo e tolerância, pela venda de nossas horas livres. Porque você sabe né? Nós vendemos a nossa força e nosso tempo para o patrão, quando aceitamos um emprego. E o valor que você vende o seu tempo livre é justo? Está justa a divisão dos lucros?
Eu não tenho aqui – neste pequeno e valioso espaço – pretensão alguma em fazer algum tipo de revolução. O próprio Marx já tinha “se ligado” de que o tempo para se fazer a revolução havia passado, que a tomada de consciência dos operários estava longe de acontecer. O século XX chegou, aumentou a classe média, e todos estavam atrelados em demasia ao sistema econômico ao adquirir bens de consumo. Esse trabalhador já era alienado o suficiente e não se reconhecia mais nos produtos que produzia.
Então, o que nos resta fazer? Cruzar os braços e ver o quanto robóticos nos tornamos?
O poeta Thiago de Mello, em “Os estatutos do homem”, sintetiza o sentimento de indignação que está me consumindo e me entristecendo. Mas neste trecho do Artigo XIII, a esperança de dias melhores me alegra: “Fica decretado que o dinheiro não poderá nunca mais comprar o sol das manhãs vindouras”. A esperança é sempre positiva.

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

Pôr em prática!

Uma semana em nome da pátria, em nome da independência, da emancipação. Os antagonismos estão sempre presentes em nosso dia a dia. Coreanos são assassinados, roubados, ameaçados e coagidos. Aqui o fim de semana com as cores do arco íris da diversidade. Como a realidade é contraditória, as dualidades estão sempre dando o tom.
Ao mesmo tempo em que avançamos frente ao preconceito, regredimos violentamente em outros momentos.
As pessoas preferem escolher um determinado dia para permitir a diversidade, mas o que deveria, sim, ser regra é a escolha da diversidade todos os dias.
Um dia para comemorar, para festejar a diversidade é pouco diante da realidade de nossa sociedade. Eu acredito que ao escolhermos um determinado dia estamos limitando, determinando. Direitos iguais para todos os seres humanos! Sempre!
O ser humano é engraçado – ironizando para não cair num pessimismo sem fim – abre algumas concessões e se fecha em outras. Mas no caso não o ser humano, mas a humanidade em si, envolvendo todos os seus aspectos e âmbitos históricos.
O terror aplicado aos coreanos em São Paulo, pela “Mooca Chapa Quente” (MCQ), uma gangue com mais de 60 adolescentes e jovens, ilustra o problema principal: do preconceito com as diferenças. O modus operandi da MCQ, segundo o jornal O Globo, “consiste em pichar seus símbolos nas casas de orientais e descendentes para sinalizar que a residência é o próximo alvo. O sinal verde para o assalto também pode ser detectado por um plástico ou pano amarrado no portão da casa. Os criminosos espancam vítimas, ameaçam atear fogo a seus corpos e exibem orgulhosos o dinheiro roubado e o armamento do grupo em sites da internet”. O que mais me assusta é essa necessidade de exibir como um troféu os crimes, a internet tem a função de podium para aquele que mais-violência dissipar.
Portanto vamos refletir, vamos analisar a situação proposta pela semana da diversidade. Temos que ser mais HUMANOS, temos que nos unir, amai uns aos outros, no sentido extremo de amor pleno. Coreanos, gays, deficientes, brancos, negros, índios, todos juntos! Não importa a etnia, o credo ou a opção de vida, nem a condição de vida.
Muitos falam que em Bauru tivemos, no último domingo, a “parada gay”. No entanto, eu acredito que a proposta desta mobilização é muito mais abrangente. Porque o título é “Parada da Diversidade”, no sentido amplo, no sentido de respeitarmos aquilo que a sociedade civil estabeleceu como diferente.
Porque devemos ser de determinada forma? Como estabelecemos os nossos padrões? O que é certo ou errado? Todas as respostas estão calcadas na História, assim mesmo com “H” maiúsculo, uma história da História universal, às vezes, como no caso de Hegel, personificada no Espírito Absoluto. Analisando todo o percurso cultural-histórico temos o preconceito como algo enraizado. Essas barreiras têm que ser vencidas. Temos que pôr em prática a nossa Razão, não uma razão instrumental, tecnificada, mas sim uma Razão que englobe todo o caráter emancipatório do homem. Porque se não focarmos nessa Razão (maior), podemos cair novamente num estado de exceção, onde o fascismo reina. Onde a violência é o motor que une todos num clima de terror.
Não podemos voltar aos tempos da 2ª Guerra Mundial, onde o preconceito pelo diferente trouxe tantas dores. A ordem é amar, sempre. Amar o ser humano em geral, não restringir, não particularizar. Não adianta nos fecharmos em gangues, tribos ou turminhas, temos que nos relacionar com o mundo e com todos!

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Lixo: para onde vamos mandá-lo?

Você já parou para pensar para aonde vai todo o lixo que produzimos? Se fossemos ingleses seria fácil esta questão. Era só mandar tudo num container para algum país da América do Sul, mais especificamente, o Brasil. Na verdade não foi apenas um container, mas sim 56! Ou melhor, 900 toneladas de lixo comum. Leia-se camisinhas e fraldas usadas, seringas, restos de comida... Dizem que havia até brinquedos com recados para fossem dados às crianças brasileiras. Simplesmente um absurdo, que só poderia partir de uma monarquia decadente. Vale lembrar que isso parece ser uma prática comum dos países da Europa, que mandam seu lixo para a África e Ásia. E não é só lixo, propriamente dito, que eles andam mandando pra outros países… tem o “lixo” de gente também.
O mundo está inflado, super populoso e, ainda por cima, sem consciência ecológica.
Mas a culpa é de quem?
A culpa é do sistema capitalista de produção, que só sabe incentivar o consumo e a produção desenfreada.
O problema todo teve início quando a burguesia comprou a sua liberdade e saiu por ai desbravando mares, conquistando territórios e ampliando mercados. Com o aumento da produção surgem as fábricas, com as fábricas surgem o proletariado. E toda uma lógica de consumo.
Taylor em seu livro, Princípio de administração científica, propõe a racionalização da produção, com a finalidade da produção em massa. Já Henry Ford introduz a linha de montagem na produção automobilística, que século XX se expande, a partir dos EUA, para todos os ambientes, visando mais eficiência.
O mundo só pensava em produzir para o consumo desenfreado. Sem consciência das agressões ambientais.
Ainda hoje, no século XXI, temos a ilusão de uma consciência ambiental. Separar o lixo ainda é uma luta, as pessoas têm preguiça. Ao invés de consertar um aparelho quebrado preferimos jogar fora (mas aonde é o fora?) e comprar um novo, porque a lógica capitalista afirma que é mais barato comprar um aparelho tecnológico novo, do que consertar. Realmente, arrumar fica caro, é mais vantajoso ter um aparelho novo com nova tecnologia, mas é vantajoso para quem? Aposto que para o nosso planeta e para os técnicos em conserto não.
Há duas semanas uma equipe de cientistas e ambientalistas partiu de São Francisco, nos EUA, em busca do que alguns chamam de "A Ilha do Lixo" – um redemoinho de lixo no Oceano Pacífico formado por mais de seis milhões de toneladas de plástico. O amontoado de lixo flutua à deriva entre a Califórnia e o Japão.
A que ponto chegamos? É como arrastar para debaixo do tapete a sujeira. Não temos aonde por em terra, joga-se no mar.
Segundo o site portaldomeioambiente.org.br, “o redemoinho foi descoberto em 1997 pelo oceanógrafo Charles Moore. Ele ignorou os alertas de não passar pela região, onde faltam ventos e correntes, e acabou descobrindo o acumulado de lixo. Durante a viagem, o oceanógrafo encontrou pedaços de garrafas, sacos plásticos, seringas e uma variedade enorme de outros objetos de plástico em vários estados de conservação, já que, devido à ação do sol e dos ventos, o material se desintegra em fragmentos pequenos que flutuam durante anos, obedecendo às correntes marítimas”.
Só para termos dimensão do lixo que está lá. Ele é duas vezes maior do que a superfície do estado norte-americano do Texas. É muito lixo!
Mais de uma década descoberto e ninguém fez nada para resolver o gigantesco problema. Porque o lixo está em águas internacionais, ou seja, não é do governo de nenhum país. Mas isso não significa que não influencie todos os países do mundo. Peixes estão morrendo, águas são poluídas, e o problema é de quem? Vamos olhar com mais carinho e consciência para o nosso lar, o nosso planeta!

domingo, 30 de agosto de 2009

Tô Só

(Crônica de Hilda Hilst para o "Correio Popular" de Campinas-SP)

Vamo brincá de ficá bestando e fazê um cafuné no outro e sonhá que a gente enricô e fomos todos morar nos Alpes Suíços e tamo lá só enchendo a cara e só zoiando? Vamo brincá que o Brasil deu certo e que todo mundo tá mijando a céu aberto, num festival de povão e dotô? Vamo brincá que a peste passô, que o HIV foi bombardeado com beagacês, e que tá todo mundo de novo namorando? Vamo brincá de morrê, porque a gente não morre mais e tamo sentindo saudade até de adoecê? E há escola e comida pra todos e há dentes na boca das gentes e dentes a mais, até nos pentes? E que os humanos não comem mais os animais, e há leões lambendo os pés dos bebês e leoas babás? E que a alma é de uma terceira matéria, uma quântica quimera, e alguém lá no céu descobriu que a gente não vai mais pro beleléu? E que não há mais carros, só asas e barcos, e que a poesia viceja e grassa como grama (como diz o abade), e é porreta ser poeta no Planeta? Vamo brincá
de teta
de azul
de berimbau
de doutora em letras?
E de luar? Que é aquilo de vestir um véu todo irisado e rodar, rodar...
Vamo brincá de pinel? Que é isso de ficá loco e cortá a garganta dos otro?
Vamo brincá de ninho? E de poesia de amor?
nave
ave
moinho
e tudo mais serei
para que seja leve
meu passo
em vosso caminho.*
Vamo brincá de autista? Que é isso de se fechá no mundão de gente e nunca mais ser cronista? Bom-dia, leitor. Tô brincando de ilha.

* Trovas de muito amor para um amado senhor - SP: Anhambi, 1959.

(Segunda-feira, 16 de agosto de 1993)