sexta-feira, 19 de junho de 2009

Ilusão mágica

Mágica do teatro. Pensando bem. Não só do teatro, mas também a do circo, de todas as apresentações que você tem contato com o todo do que está acontecendo. No cinema isso não ocorre. Na sala escura, gelada com a temperatura regulada pelo ar condicionado, o que vemos são reproduções. A mágica se perde quando a reprodução em série se instaura. Desde a xilogravura a arte(sanal) se reproduz. Mas a reprodução ainda não é em série. A imprensa se desenvolve e se multiplica. A fotografia surge. Com isso o pintor não precisa mais ir até o lugar que deseja pintar. Ele manda fotografar. Da fotografia sai o quadro. Ponto para a reprodução fotográfica. O sujeito-artista se enclausura. Ele não precisa mais sair de casa e se relacionar com o mundo para pintar o seu quadro, a sua interpretação da realidade. A verdade do quadro advém de uma (in)verdade, advém de uma representação captada pelo olho de alguém. E se ela é uma representação captada pelo olho de alguém ela já sofreu interferência. Já é interpretação. Portanto, o quadro pintado a partir de uma fotografia, mesmo que encomendada, é uma interpretação da interpretação. A foto se desenvolveu, ganhou movimento. O cinema surge. O século XX é o século do cinema. A arte é democratizada. As massas, à noitinha, no final do expediente vão para as filas dos cinemas. As massas, pela primeira vez, têm participação na arte. Porque agora, reproduzidas em películas são mais acessíveis. Não são como uma grande ópera. Onde somente a elite pode ter acesso. Outra coisa. O cinema, além de entreter também tem função terapêutica. Há quem diga que a função terapêutica se dá como nas vacinas. Mas como funcionam as vacinas? Quando após a aplicação a vacina atinge a corrente sangüínea. Lá o vírus ou a bactéria chamará a atenção das células de defesa. Produzirão um anticorpo contra o invasor. Depois de liquidar o falso inimigo, as células defensoras memorizam seu perfil e ensinam outras integrantes do sistema imunológico a atacá-lo. Se o organismo entrar em contato com o legítimo vírus ou bactéria, já terá todo o esquema armado para reconhecê-lo depressa. Quando corre o risco de se esquecer da estratégia, doses de reforço servem de treinamento. O cinema funciona exatamente da mesma maneira. Quando a noitinha os trabalhadores pegavam os seus bilhetes e rumavam às suas poltronas. Assistiam ao filme. O filme os preparava para viver na modernidade. Com todos os planos de seqüências, montagens, cortes nós nos acostumamos à rapidez da máquina que agora se insere no nosso dia-a-dia. Reza a lenda que em uma pequena cidade européia foram passar um filme. Na película, um trem desgovernado seguia em direção à tela. Como se fosse sair da tela. Num plano diagonal. Os espectadores, aterrorizados, saíram correndo do cinema. Acreditaram que o trem ia literalmente sair da tela. Seria uma tragédia, se não fosse ilusão. Essa ilusão do cinema, como nas vacinas, que nos prepara para a vida moderna. O cinema estimula o nosso inconsciente óptico. Através dele memorizamos os golpes de imagens e dos “absurdos mágicos”, dos efeitos especiais. Evitamos às neuroses. Esse é o valor terapêutico do cinema. Hoje precisamos de cinema 3D para sentir algo a mais na nossa imaginação. Dê preferência os bem trash. Que exploram o grotesco. Como um que eu assisti há alguns meses no cimema,Dia dos namorados sangrento (My bloddy Valentine). Filme que explora apenas a tecnologia 3D, e se esquece de todo o resto. A poesia foi esquecida em nome de uma racionalidade técnica.

Um comentário:

Paulinho disse...

Esse texto está sensacional!

Meu comentário se limita a um simples elogio, porém, sincero.

No primeiro ano de faculdade, eu não dava a mímina atenção à filosofia, no entanto, graças ao excelentes professores que tive a honra de ter, passei a olhar a filosofia com novos olhos e, dentre esses professores, vc foi entitulada como a mais bela de todos.

Apesar de amar suas aulas, elas foram as responsáveis por eu não bater meu record, o de 100% de presença durante o semestre.

Sei que esse não é o local apropriado para isso, mas lhe desejo sucesso total em sua carreira, a qual promete ser brilhante.
Felicidades.