segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Filosofar é pensar!



Desde que decidi fazer faculdade de filosofia as mais diversas pessoas chegaram até mim e perguntaram:

Mas você vai viver do que? Tem campo de trabalho? Vai ser professora? O que se faz com filosofia?

A partir destes questionamentos externos a dúvida brotou até em mim, que estava tão segura do que queria. E comecei, eu mesma, a pensar sobre essa tal de Filosofia. Se realmente valia a pena terminar a graduação. Eis que agora não só terminei a graduação, como já estou terminando um mestrado e sou, enfim, professora, como muitos pensaram que seria o meu “fim”.

Agora com essa oportunidade de escrever a vocês, leitores, eu gostaria de desmistificar, ao menos um pouco, o que é a Filosofia. E para isso nada melhor do que começar com problematizações, com questões.
Portanto, o que é essa tal de Filosofia? Para que serve? O que fazemos com ela? Como usamos/aplicamos a filosofia no nosso dia a dia?  Tantas perguntas sem respostas, pois “filosofia” não pode ser e nunca será um produto, um bem de consumo. Não pegamos “filosofia”, não compramos “filosofia” no supermercado, não comemos “filosofia”.

A filosofia é estritamente abstrata. É coisa dos gregos antigos. E para espanto de muitos, filosofia mesmo, só no Ocidente!

O pensamento filosófico surge quando o homem começa a se perguntar o porquê das coisas, da natureza e da vida prática. A partir daí o tal pensamento filosófico vai se estruturando, na medida na qual o homem se pergunta o porquê de sua própria existência, e tenta dar respostas a esse questionamento.
Muitas coisas que achamos serem modernas ou contemporâneas, já haviam sido pensadas pelos gregos antigos, como por exemplo, o átomo.

O nosso modo de agir é a soma da nossa tradição, do nosso passado, da História.

É certo que alguns filósofos influenciaram em maior ou menor intensidade na história, e isso se dá exatamente pela história, é ela que escolherá quem será lembrado no futuro. Mesmo quem pense não estar sendo influenciado pelo pensamento filosófico está errado, já que desde muito tempo atrás tal pensamento emana por toda a história os seus resultados.

O pensar racional, a formulação de questionamentos e reflexões acerca de um determinado assunto pode ser uma construção filosófica. O filósofo, ao contrário do que muito se pensa por ai, não é aquele que tem uma formação acadêmica obrigatoriamente. É filosofo quem consegue articular sobre vários assuntos que são importantes para a sua essência, para a compreensão de sua existência no mundo. Filosofar é, grosso modo, ter um pensamento racional, estruturado sobre os mais diversos assuntos que permeiam a existência em geral. É saber articular. Pensar.

Hoje percebemos que a filosofia está na “moda”, e tudo o que está em evidência corre riscos. O risco que a filosofia está correndo é da sua banalização e da massificação do seu potencial emancipatório, pelos livros de auto-ajuda que lotam as prateleiras das livrarias e tem como promessa sanar a dor dos problemas da vida moderna, do indivíduo dilacerado que não se compreende mais. Resta-nos agora juntar os cacos da História e, a partir do pensamento racional e filosófico, tentar se recompor.



Texto publicado no dia 29 de abril de 2009 para o Jornal Bom Dia de Bauru 

quinta-feira, 21 de abril de 2011

...

Tiradentes,
DentesTira.
Heróipréfabricado?

terça-feira, 27 de abril de 2010

Ter educação é uma virtude em extinção

Por que ter educação está cada vez mais distante da nossa realidade?
As pessoas, hoje em dia, não se respeitam mais, se agridem o tempo todo, não são cordiais e nem amáveis. Nem por cortesia as pessoas são educadas. Ou pior ainda, nem fingem serem educadas. Parece que a nova onda é ser grosso, mal educado e chulo.
E não estou falando apenas da realidade de nosso país, mas de uma realidade muito mais abrangente. Até a Europa e os europeus (que se julgam finérrimos) não escapam dessa.
Será que o problema está na criação? Ou está na escola? Ou dentro de cada pessoa?
Vou mais além, será que a escola tem essa função?
Até que ponto a escola tem a responsabilidade de fazer esse papel de educar os filhos dos outros? Se for assim, então é melhor lermos “A República”, de Platão.
Neste livro da Grécia Antiga o filósofo propõe que os filhos sejam entregues ao Estado, e só após terem terminado os seus estudos são integrados na Cidade Ideal. Mas a cidade é ideal, é utópica. E aí entram os direitos humanos e um “monte” de entidades que nunca permitiriam isso. E também quem garante que isso daria certo?
O que eu sei é que parece que estamos estagnados quanto ao nível do intelecto, e as pessoas não têm interesse em mudar. Mudar é um verbo que não se conjuga. As pessoas não reconhecem as suas falhas. Infelizmente vivemos em um tempo que o pragmatismo e o utilitarismo imperam, sem falar no individualismo excessivo.
O aluno não respeita o professor, porque não vê nele a figura do mestre. O professor não respeita o aluno, por acreditar que esse já vem para a aula com o estigma de preguiçoso e mal-educado. Com isso geramos um ciclo vicioso, e não saímos do lugar, não evoluímos.
Na última quinta-feira (15), às vésperas de completar 80 anos a estátua do Cristo Redentor foi pichada – braços, peito e rosto. Pela primeira vez o “pichamento” atingiu pastilhas de pedra sabão que compõe a estátua. Escreveram coisas como: “onde está a engenheira Patrícia?” (desaparecida desde junho de 2008) e “quando os gatos saem, os ratos fazem a festa”. Eu não vou entrar no mérito da questão se é crime ou não, ou o que quiseram dizer à engenheira Patrícia. O que me interessa nesse caso é como a má-educação é um problema geral, de todos.
O que a estátua de Cristo tem a ver com o problema da engenheira? O Cristo Redentor é um símbolo. Necessitamos de símbolos para, exatamente, simbolizar, no caso a fé. E o Cristo pichado é o símbolo do Rio de Janeiro após mortes nos morros, após injustiças, após criminalidade, após chuva, alagamento e deslizamentos. Mas também o Cristo pichado é símbolo de nossa educação falida, de nosso descaso e de nossa conformidade com todas as barbáries que acontecem nessa “terra de nosso senhor”.

quinta-feira, 15 de abril de 2010

Ética em nossas vidas

Ano de eleição. Política, ética. Falta de ética. Ecologia, direito civil, criminalidade. Bioética, religião, cultura. Sociedade, educação, profissionalismo. Códigos de ética. Valores. Virtudes. Agir bem, o que é o bem? Ou o mal?
Mas afinal o que é ética?
Ética, essa palavra tão usada e, ao mesmo tempo, tão mal compreendida. Podemos “aplicar” a ética/moral em todas as esferas de nossas vidas. Em, praticamente, todo o âmbito de nossa realidade social.
Ontem eu estava escrevendo o texto desta semana e assistindo a um telejornal, assistia ao caos no Rio de Janeiro. Aliás, caos provocado não apenas pelos fenômenos naturais, mas pelo lixo acumulado que entope os sistemas de escoamento de água. Choveu quinze horas ininterruptas, 270 mm de água, e fica a pergunta: como o solo vai absorver toda essa água se por todos os lados vemos apenas asfalto?
O homem e o seu “progresso” desenfreado não enxerga que o planeta pede socorro. Do ponto de vista da ecologia, é ético o que nós mesmos fazemos com o nosso planeta?
Catástrofes naturais são cada vez mais freqüentes. Terremotos no Haiti, no Chile e, agora, no México. O que fazer? A natureza está em revolta contra o homem? Pode-se dizer que sim.
Aquecimento global, lixo acumulado, testes nucleares. Tudo isso parece que se relaciona com outras áreas do conhecimento, mas é assunto da ética também.
A ética está por toda a parte.
Ainda no mesmo telejornal, vi uma notícia rápida sobre a nossa cidade, Bauru. A notícia não tinha nada a ver com ecologia, mas tinha a ver com a ética. A notícia – que na verdade era quase uma “notinha” – dizia que em nossa cidade poderá haver toque de recolher para menores. Fiquei assustada, porque para mim isso é um retrocesso a um estado de exceção, a uma barbárie. E a ética serve de base para fundamentar essa discussão, será que proibir coíbe a criminalidade?
Segundo a notícia esse projeto é de um juiz que vê no toque de recolher a solução para os delitos provocados por esses menores. Agora, alguém me responda: Quem garante que isso vai dar certo? E os delitos não acontecem de dia também? Logo nos proibiram de sair de nossas casas na hora que bem entendermos, em nome, é claro, de nossa segurança.
Com tanta violência já estamos nos aprisionando em condomínios de luxo. Cadeias estão superlotadas. Crianças nas ruas fumando crack (porque inalar cola já é coisa do passado). E um juiz vê a solução em toque de recolher?
Eu sou parceira da idéia de que somente a educação e a cultura salvam.
Porque não temos um projeto de centros culturais no centro de nossa cidade? Temos tantos prédios históricos abandonados ou “detonados”. Ao invés de toque de recolher, poderíamos ter projetos sociais, de teatro, de literatura nesses lugares.
Mas a verdade é que isso dá muito trabalho, e proibir fica sendo mais fácil... E o nosso país vai ficando com um déficit cultural enorme...

Conhecemos ou somos informados?

Você já parou para pensar em que nível o conhecimento está inserido em nossa sociedade? Avançamos, paramos ou regredimos em relação aos nossos antepassados?
Para responder a tais questionamentos volto à Grécia Antiga.
Entre os gregos antigos não havia inter-relação direta entre a esfera do conhecimento e do trabalho. Trabalhar não era uma atividade nobre, era reservada aos escravos e servos. Quem detinha o conhecimento das coisas era tido como um ser nobre, que gozava de direitos exclusivos dentro da polis (cidade grega).
Será somente com a Revolução Industrial que esta configuração fechada do mundo se modifica. Neste período o conhecimento é aplicado (usado) no trabalho.
É preciso saber para aplicar este conhecimento de modo prático. Com as enciclopédias, como a de Diderot no século 18, aparece pela primeira vez uma lista de ocupações e o que se deve estudar para preencher tais ocupações. Por exemplo, “quem quer ser médico precisa estudar anatomia; quem quer ser um engenheiro, precisa estudar calculo”.
E hoje, qual é o papel do conhecimento?
Parece-me que hoje há uma interação do conhecimento e do trabalho, eles estão fortemente ligados, ao passo que não há trabalho sem algum tipo de conhecimento envolvido. Assim, o conhecimento é o principal fator de produção, porque o peso está no conhecimento, na tecnologia.
No entanto a tecnologia – que é filha do conhecimento – não pode ser um fim em si mesma. A tecnologia é uma ferramenta a ser usada para auxiliar o homem e não para escravizá-lo.
Infelizmente no século 21, só alguns detém o conhecimento – principalmente em nossa sociedade tão desigual –, as grandes empresas detém o conhecimento e a tecnologia necessária para aplicar em seus bens de consumo.
O que se verifica é que ao invés de irmos em direção à inteligência estamos regredindo e voltando aos dados, ao simples acumulo de dados, e o conhecimento está limitado às grandes corporações.
O acumulo de dados não é algo novo, aliás, é algo antiqüíssimo. Os dados, cada vez mais abundantes, são a forma mais simplista e não envolve pessoas.
Já as informações envolvem pessoas, os veículos de informações. E acredito que é neste nível que a nossa sociedade está inserida. Ao passo que o conhecimento é algo mais rico e amplo. Envolve teoria (que para algumas pessoas é algo pejorativo) e compreensão.
E o último patamar é o da inteligência, que nada mais é do que um projetar toda essa gama de coisas: dados, informações, conhecimentos. Ao chegar neste nível, do conhecer, é porque temos condições de projetar os dados, as informações, as teorias.
Ao pensar sobre esta pequena análise eu acredito que não regredimos, mas ficamos estagnados. Não conseguimos evoluir. Temos que ter consciência e clareza para entender a tecnologia e utilizá-la de maneira positiva e emancipatória.

Para onde correr?

Será que você está a salvo porque tem convênio médico? Eu acho que não. No último mês eu mesma constatei que ter convênio médico, hoje em dia, não é sinônimo de qualidade de atendimento médico. Sinceramente, eu estou com medo de procurar o hospital em uma próxima vez.
É claro, que a rapidez do atendimento em relação ao serviço único de saúde é indiscutível, mas e a qualidade do atendimento médico, será que difere tanto assim? Após ficar internada no hospital da Unimed fiquei com algumas dúvidas.
Um amigo me disse: O médico para trabalhar no SUS faz concurso, mas e o medico de convênio faz concurso para trabalhar no hospital do convênio? Eu não sei responder a esta pergunta, não sei quais são os critérios para trabalhar num hospital particular. Não sei se pautam pela qualidade ou pelo dinheiro. Pela ética ou pelo capitalismo.
A questão toda vai além dos problemas de nossa cidade, e descobrimos que o problema de médicos ruins é nacional.
Quantos morreram ou sofreram deformações por erros cometidos por médicos? Médicos condenados judicialmente ainda atuam. Quantos cirurgiões plásticos furaram, por exemplo, os intestinos dos seus pacientes? Quantos aplicaram medicamentos fortes indiscriminadamente? Quantos, por descaso, mandaram o paciente para casa e depois de algumas horas eles morreram?
Nesta terça-feira, eu vi na tevê dois casos envolvendo erros de médicos. O primeiro de um cirurgião plástico “carniceiro”, condenado pela justiça, mas que ainda atua em sua clínica em São Paulo. E o outro caso é de uma mulher que sofreu um acidente quando era transportada por um moto taxista; no hospital só fizeram Raio-X, quando a mulher chegou em casa morreu.
O descaso, a impunidade e a falta de preparo são elementos que configuram a nossa realidade.
Soube por psicólogos da USC que médicos, aqui em Bauru mesmo, estão aplicando Tramal (indicado para dor crônica; derivado de morfina) até em crianças. E ainda mais, alguns médicos não estão preparados para diagnosticarem sintomas de somatização. Ou seja, sintomas provocados, por exemplo, por estresse, que não aparecem em exames. São sintomas provocados pela própria mente do paciente. Este tipo de patologia está cada vez mais freqüente em nossa realidade, já que vivemos em um mundo que propicia o aumento do estresse.
Na realidade o nosso sistema econômico tem a sua parcela de culpa também nesta esfera da sociedade. Somos vistos como números e não como seres humanos. É mais fácil aplicar morfina e dopar o paciente, que não sentirá mais nada, nem dor, nem vida. É mais fácil calar do que tratar.
Temos que nos organizar e não deixar impune os descasos sofridos no SUS ou no convênio. Porque o SUS não é caridade, não é favor do Estado, pagamos impostos para termos direito do uso. E no convênio médico pagamos uma verdadeira fortuna. Fortuna sim! Parem para pensar na quantidade de conveniados e nas mensalidades pagas, e no detalhe de que a cada aniversário que passa a sua mensalidade pode aumentar, e como aumenta quando se é idoso.
Se liguem nas coisas que acontecem ao seu redor, não deixe a impunidade tomar conta de todas as esferas da sociedade. Denuncie, proteste, reivindique os seus direitos! Somos cidadãos, temos deveres, mas acima de tudo, temos direitos básicos que estão sendo esquecidos.

domingo, 7 de março de 2010

?

é ridiculamente inclassificavel o extremo ato de rebeldia de algumas pessoas: "te deletei do meu orkut". Quem sabe não é uma maneira de dizer: "não sou mais seu amigo".

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Liberdade de escolha

Esta semana quero compartilhar uma experiência vivida no ensino. Como vocês já sabem sou professora universitária, e na última quinta-feira, eu e outra professora promovemos uma aula diferente. Combinamos de juntar as nossas turmas e trazer alguns convidados para falar sobre “Manifestação da fé”. Foi uma idéia incrível.
O resultado não poderia ter sido mais positivo!
Confesso que estava apreensiva. O que era natural, já que seria a primeira vez que estávamos fazendo uma “mesa redonda” com lideres religiosos de diversas crenças. Fiquei ansiosa para ver qual seria a postura e reação dos alunos.
Convidamos um pastor, um umbandista, um padre e representantes do budismo. Cada um falou sobre a sua fé, a sua ESCOLHA. Foi uma oportunidade, um momento em que muitos mitos e tabus foram dissipados. A desmistificação é um processo importante para a aquisição do conhecimento, da cultura e da formação de uma consciência moral.
O senso comum não pode mais ser calcado em mitologias modernas, temos que ser esclarecidos, pois a ignorância leva à violência e à intolerância.
Temos que parar de pensar que uma religião é melhor do que a outra. Imaginem se todos nós gostássemos apenas da cor preta? Ou da cor azul? É tudo uma questão de gosto, estilo, crença, cultura, enfim, de se sentir bem.
A grande busca de nossas vidas deve ser a felicidade, se sentir bem, independente do que os outros pensam. Uma felicidade fundada no presente, porque ninguém vive de passado e muito menos do que está por vir. Viver o hoje eticamente. Viver o hoje não fazendo mal a ninguém. Viver o hoje com a intensidade de uma vida desprendida de materialidade.
Charlatões estão por toda a parte, como em todas as esferas da sociedade: ensino, política, religião... Devemos usar o bom senso e saber escolher todos os lugares que freqüentamos. Tolerância e bom senso devem andar juntos, sempre.
A manifestação da fé deve ser algo pessoal, puro e íntegro. Algo realmente levado a sério e livre de julgamentos de valores, como “a minha fé é melhor do que a sua”. Desta forma, manifestações da fé de forma impositiva devem ser repensadas, porque podem incomodar pessoas de orientações religiosas diversas. Cito dois exemplos: romeiros saem por vai andando juntos e manifestando a sua fé de forma coletiva, isso não deve incomodar ninguém, já que eles estão expressando coletivamente a fé deles, para eles, para o Deus deles. Agora, na Copa do Mundo de 2010, a Fifa quer proibir qualquer manifestação coletiva da fé, neste caso a “proibição” é justificável. Explico: depois da final da Copa das Confederações, a seleção brasileira se reuniu dentro de campo para rezar pelo título conquistado do torneio, liderado por Kaká. Este gesto foi criticado pelo presidente da Federação de Futebol da Dinamarca, Jim Stjerne Hansen. Eu não sou adepta à proibições, mas no caso de uma Copa do Mundo estaremos em contato com muitas religiões e religiosidades, e impor a fé dos jogadores não é algo legal, já que pode ofender a outros. Não é o contexto apropriado.
Não me interpretem mal, mas atletas fazendo sinal da cruz ao entrar em campo, beijando anéis, medalhas de santos, cruzes e patuás que trazem pendurados em cordões e apontando aos céus como a agradecer pelo gol marcado. Ninguém tem nada a ver com isso, são manifestações individuais. Mas uma manifestação coletiva, explícita e organizada como um ritual religioso pode dar margem a críticas ao ser associada a um bem público. A religiosidade de cada um seja ela qual for merece respeito, da mesma forma como merece ser respeitada a falta de religiosidade daqueles que assim optaram a seguir a vida. O respeito e a liberdade são condições de uma boa vida, e de uma fé autentica.

Querer estar perto

Quando amamos nós vivemos num estado de suspensão. Queremos sempre o amado (a) por perto. No entanto o que “rola” é sempre a velha história da utopia de perfeição e até a utopia do auto-conhecimento. Queremos que o parceiro seja perfeito aos nossos olhos, mas ninguém consegue atingir a perfeição, justamente pelo fato da própria utopia do auto-conhecimento. Temos a ilusão de nos conhecermos. Mas o que sempre acontece é em algum momento da vida (ou todos os dias) nos perguntarmos: quem somos?
Como queremos nos conhecer, ter esse auto-conhecimeto e compreender o outro se nos dias atuais não temos tempo? E não só tempo, mas também paciência. Temos preguiça de nos relacionar. O que impera hoje é a máxima: “Eu não te ouço e você não me ouve”. Vivemos em um mundo surdo, só escutamos quando nos convém. Só ajudamos quando há interesses. Não nos relacionamos de forma fluídica e desinteressada. Acabamos fazendo o outro como meio, e não como um fim de uma ação.
Podemos pensar no amor. Em todas as suas configurações livres. Mas, o que é amar? O que é amar uma pessoa? Tive a liberdade de colocar aqui neste, “meu” pequeno espaço, um poema de Carlos Drummond de Andrade intitulado “Quero”, que na minha opinião é belo e expressa o querer estar perto, o bem-querer, e está em sintonia comigo, e com certeza com muitos leitores e leitoras:
“Quero que todos os dias do ano; todos os dias da vida; de meia em meia hora; de 5 em 5 minutos; me digas: Eu te amo. Ouvindo-te dizer: Eu te amo, creio, no momento, que sou amado. No momento anterior e no seguinte, como sabê-lo? Quero que me repitas até a exaustão que me amas; que me amas; que me amas. Do contrário evapora-se a amação; pois ao não dizer: Eu te amo, desmentes apagas teu amor por mim. Exijo de ti o perene comunicado. Não exijo senão isto, isto sempre, isto cada vez mais. Quero ser amado por e em tua palavra; nem sei de outra maneira a não ser esta de reconhecer o dom amoroso, a perfeita maneira de saber-se amado: amor na raiz da palavra e na sua emissão, amor saltando da língua nacional, amor feito som vibração espacial. No momento em que não me dizes: Eu te amo, inexoravelmente sei que deixaste de amar-me, que nunca me amastes antes. Se não me disseres urgente repetido; Eu te amoamoamoamoamo, verdade fulminante que acabas de desentranhar, eu me precipito no caos, essa coleção de objetos de não-amor”.
O amor é ordem, o caos a desordem. Sem amor não vivemos, o ser humano se alimenta de amor. O problema é quando a sociedade do consumo coloca os seus produtos no mesmo patamar do sentimento puro, aí o caos se instaura. As pessoas ficam confusas e não diferenciam uma necessidade fetichista de consumo com o amor desinteressado.
Homens e mulheres sentem a necessidade de ouvir e sentir o amor, o amor do amado (a). O belo poema de amor de Drummond enaltece o maior sentimento do ser humano. O texto desta semana é um apelo a todos os leitores e leitoras, para que pensem e reflitam se amam e estão sendo amados.
Não transfira para bens de consumo o potencial emotivo que reside dentro de você. Parece papo de “chalalá”, mas é verdade. Vamos realmente amar uns aos outros. E, principalmente, não esquecer de comunicar isso às pessoas, seja em palavra, texto ou gesto.

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

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lembrei! ufaa! detesto quando não consigo lembrar das minhas próprias idéias e devaneios. era sobre a autenticidade das obras de arte. estava pensando que hoje customizamos os bens de consumo que podem se encaixar como arte. p. ex. um quadrinho pintado, comprado há um tempo. eu sei que o quadrinho - mesmo sendo pintado à mão - ele é feito em série, ele pode conter em potencia a autenticidade da obra, mas não tem, mas com o seu uso ele pode vir a ter uma certa autenticidade. O seu "ter o objeto que pode vir a ser obra de arte" é uma idéia interessante. Pensei em várias outras coisas que se relacionam. Bom, apenas pensei, apenas idéias.

sábado, 3 de outubro de 2009

Chegadas e partidas

Manicuras. Cabeleireiros. Homens. Mulheres. Dentista. Médicos. Amigos. Pessoas, enfim. Cachorros. Gatos, Amores, Roupas, Medidas, Filmes, Moda, Estilos, Rótulos, Empregos.
Tudo nasce, cresce e morre. Esta é a lei de que nada é para sempre. Nem o nosso planeta durará para sempre. Do jeito que nós, indivíduos perenes, estamos tratando mal dele, logo logo se vai.
As pessoas acham que tem controle de suas vidas, mas depois acabam descobrindo que tudo pode mudar num segundo. E por quê? Justamente pela lei de que todos nós partiremos, vamos para o Nada. Ou para o paraíso?
Se formos para o paraíso reforçaremos a hipótese de que tudo é cíclico, tudo se reduz à “chegadas e partidas”. Mas, isto seria muito idealismo. Mas para o Nada também é um tédio. Nada recompensador.
A vida é, às vezes, tão sofrida, temos que nos esforçar tanto para sobrevivermos. Você tem de trabalhar, ganhar dinheiro, senão você não vive no capitalismo. Temos que vender as nossas horas do dia, para poder consumir.
Tudo o que nos cerca são produtos, produtos do capital, no entanto, também produtos culturais. Estamos rodeamos por bens de consumo. Somos materialistas. Damos valor ao objeto, atribuímos fetiches aos objetos, cultuamos.
É engraçado. Apegamos-nos tanto às coisas. Queremos dar valor de eternidade a tudo. Sendo que nem nós somos eternos. Queremos contar, contabilizar, nos agarramos tanto às datas e aos números, parece que estamos em contagem regressiva sempre.
O ser humano é dual, corpo e alma. Vive tentando se explicar, se entender. Nunca houve tanta gente procurando análise, terapia, yoga, pilates, rpg, academia. Cada um na sua “vibe”, mas procurando se compreender.
Compreender: palavra difícil. O ser humano é um ser social. Mas também é um ser egoísta, individualista ao extremo, vaidoso, orgulho. Tem ira e raiva. Tem paixões e ideais. Portanto, como se compreender?
A cada dia queremos superar. Ser melhor é condição de sobrevivência no sistema econômico no qual estamos inseridos. Ser melhor para quê? Para termos mais dinheiro, para termos mais prestígio, para termos fama?
Um dia tudo acaba. E o dinheiro continua a reinar. O seu orgulho partiu junto com você, os seus bens materiais foram divididos (em meio à quase sempre brigas). E logo ninguém mais se lembrará da sua existência.
Temos que realizar as nossas potencialidades de forma sadia e bem humorada. A busca da felicidade não pode se transformar num sonho deixado para o dia de amanhã. Aí você se pergunta: O que é a felicidade?
Cara pálida: eu não sei o que é felicidade, ninguém sabe. Ao menos tente descobrir o que te faz feliz. Cada um tem a sua individualidade – normal, sadia –, e dentro desta individualidade você deve descobrir.
Eu tento ser feliz escrevendo, dando aulas, tentando desmistificar as coisas que nos cercam, mas também tenho consciência de que isso é uma gota mínima no oceano. E um dia tudo isso se vai... ou não.
Para expressar um pouco o meu egoísmo, meu individualismo, e a minha vontade de ir contra a todas as partidas definitivas, cito um trecho do poeta surrealista (que tem um pouco a ver com essa miscelânea de hoje).
“...O puro intervalo que, de mim a esse outrem que é um amigo, mede tudo que há entre nós, a interrupção de ser que não me autoriza jamais a dispor dele, nem de meu saber dele (fosse para louvá-lo) e que, longe de impedir qualquer comunicação, nos relacionava um ao outro na diferença e às vezes no silêncio da palavra”. Maurice Blanchot, A Amizade.

Existe uma alma boa?

Ar condicionado: dá-nos a artificialidade do tempo, da temperatura. Se está frio liga se o aquecedor, se está quente liga se o ar condicionado. Nunca estamos satisfeitos. Fui à São Paulo neste final de semana, o ônibus estava ligado na “Sibéria”, e lá fora o dia estava lindo, com temperatura confortável e agradável. Fui especialmente assistir a peça de Brecht, “A alma boa de Setsuan”, no Tuca.
Não sou especialista em teatro, nem assisti a muitas peças na minha vida, mas esta para mim é especial. Bertolt Brecht foi amigo de Walter Benjamin, teórico crítico, o qual eu dedico meus dias para terminar a infinita dissertação de mestrado.
O teatro brechtiniano tem como peculiaridade o lado didático. Ou seja, “ensinar” as massas, dar ensinamento às massas para que seja possível a tomada de consciência. Outra característica é o “metateatro” (semelhante à metalinguagem) – o teatro dentro do teatro – o recurso no qual o ator dialoga com o público, como se estivesse “fora” da peça. Com este recurso é feita a síntese do pensamento apresentado.
Aqui no Brasil, a peça foi encenada priorizando o humor já apresentado no texto original de Brecht. No entanto, não vemos um humor germânico, mas sim um humor bem característico nosso. Em alguns momentos os clichês e as piadas hodiernas tomam cena, deixando um pouco menor a importância do texto original. Em vários momentos esquece-se que a peça se passa na China antiga. Mas essa pode ter sido a intenção. Trazer ao máximo para os nossos dias. Para que os ensinamentos e sugestões de Brecht pudessem ser ainda mais atuais.
Hoje, ainda temos uma massa que não tem consciência de sua função na esfera social, e cada vez menos ligada aos valores e virtudes necessárias para uma vida em harmonia.
A alma boa, única no mundo, demonstra como está cada vez mais difícil ser um SER HUMANO BOM.
Uma das sugestões que “fica no ar”, é a de que num mundo capitalista o ser humano fica ainda mais tentado a corromper-se pelo caminho do mal. Para poder sobreviver no mundo do capital, da grana, temos que passar por cima de nossos valores e virtudes? Às vezes.
É sempre fácil condenar olhando de fora, mas um vendedor de água, que tem todas as características de uma alma boa, usa uma “canequinha” furada, ou seja, é desonesto. O seu argumento é de que o mundo é cruel, e se ele não proceder assim ele não sobreviverá.
O que eu mais gostei da peça é que a alma boa, que o Santíssimo tanto procura, estava na pele de uma mulher, e ainda por cima, prostituta! Imaginem a repercussão e o sentido de vanguarda (de estar à frente) deste texto!
Muitas são as mensagens deixadas por Brecht. Todos somos iguais, homens e mulheres, todos têm virtudes e vícios. Não é fácil ser “bonzinho” e muitos querem tirar proveito sempre. E posição social não quer dizer, absolutamente, nada!
A alma boa teve que se passar por outra pessoa para não se corromper. E ainda hoje, muitas vezes, temos que se passar por outra pessoa. Nesse mundo, onde a roda gira e você nunca sabe se estará por cima ou por baixo, temos que “vender” os nossos princípios, e nos moldar segundo o ritmo. Mas a que preço? Vale a pena? Acho que não. Sempre vale mais a pena sermos autênticos e conscientes dos nossos valores e papéis na sociedade.
Podemos até sair perdendo alguma grana, mas o que não tem preço é fazer o que na sua consciência você acha o certo. Caro leitor, não se venda, assuma os riscos e multiplique o bem!

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Pneu furou, acenda o farol, acenda o farol!

Caro leitor, tem dias que tudo parece acontecer com a gente. Sabe, não fatos isolados, mas uma avalanche de coisas. Isso nos dá uma sensação de estar fora do nosso corpo. Como se estivéssemos descolados do próprio corpo e nos projetássemos para fora. Pelo menos eu me sinto assim. Não sei você. Mas, com certeza, você, leitor, deve sentir alguma estranheza especifica quando seu dia está tomado por uma soma desenfreada de coisas.
Não sou dramática, sou realista. Temos muitas coisas para fazer, exigem-se muito de nós. Falo em nós, porque acredito que não estou “nessa” sozinha. Falo em nós, porque acredito que muitos têm esse sentimento. O sentimento de que 24 horas é pouco. O sentimento que o dia passa rápido demais.
A rapidez, a eficiência, a produtividade está sempre em primeiro plano. Temos metas, objetivos. Temos que gerar lucro, sempre. Mesmo no âmbito intelectual, ou até mesmo, artístico temos que seguir estas regras.
Eu vou ser bem sincera, quero mais sossego, uma casa no campo pelo menos por 15 dias no mês seria muito agradável. Sem o barulho dos motores, das buzinas, o caminhão (chatérrimo) do gás, e dos produtos de limpeza, se não me engano, Pamambi.
Quem não assistiu, assista, o clássico sempre atual “Tempos Modernos”, de Charles Chaplin, mesmo nos anos 1930, esse sentimento do rápido, do transitório e do efêmero já fazia parte do universo dos indivíduos. A alienação no trabalho, na vida, no lazer, na produção é fato consumado e permanente – pelo menos nesse sistema econômico.
Desde a revolução industrial estamos caminhando para o colapso do próprio homem, do próprio SER HUMANO. A subjugação do homem pelo próprio homem, ou seja, o domínio do homem por outro homem.
Mas eu estou fugindo do tema que eu propus para mim mesma nesta semana. Eu comecei falando em dias ruins, e acabei deixando no ar que todos os dias podem ser ruins no sistema capitalista, no qual poucos pensam e muitos executam, como na dicotomia execução-produção.
Mas o filosofar tem dessas coisas, a divagação é sempre um risco. Mas foi uma fuga consciente, porque esse tema da alienação e da nossa perda da identidade é realmente mais interessante, do que o meu dia ruim. Só porque no meio da madrugada o pneu do meu carro furou, o estepe estava murcho, e a bateria acabou, não é motivo de fúria e indignação para eu escrever aqui.
Temos que nos indignar sim pela nossa falta de tempo e tolerância, pela venda de nossas horas livres. Porque você sabe né? Nós vendemos a nossa força e nosso tempo para o patrão, quando aceitamos um emprego. E o valor que você vende o seu tempo livre é justo? Está justa a divisão dos lucros?
Eu não tenho aqui – neste pequeno e valioso espaço – pretensão alguma em fazer algum tipo de revolução. O próprio Marx já tinha “se ligado” de que o tempo para se fazer a revolução havia passado, que a tomada de consciência dos operários estava longe de acontecer. O século XX chegou, aumentou a classe média, e todos estavam atrelados em demasia ao sistema econômico ao adquirir bens de consumo. Esse trabalhador já era alienado o suficiente e não se reconhecia mais nos produtos que produzia.
Então, o que nos resta fazer? Cruzar os braços e ver o quanto robóticos nos tornamos?
O poeta Thiago de Mello, em “Os estatutos do homem”, sintetiza o sentimento de indignação que está me consumindo e me entristecendo. Mas neste trecho do Artigo XIII, a esperança de dias melhores me alegra: “Fica decretado que o dinheiro não poderá nunca mais comprar o sol das manhãs vindouras”. A esperança é sempre positiva.

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

Pôr em prática!

Uma semana em nome da pátria, em nome da independência, da emancipação. Os antagonismos estão sempre presentes em nosso dia a dia. Coreanos são assassinados, roubados, ameaçados e coagidos. Aqui o fim de semana com as cores do arco íris da diversidade. Como a realidade é contraditória, as dualidades estão sempre dando o tom.
Ao mesmo tempo em que avançamos frente ao preconceito, regredimos violentamente em outros momentos.
As pessoas preferem escolher um determinado dia para permitir a diversidade, mas o que deveria, sim, ser regra é a escolha da diversidade todos os dias.
Um dia para comemorar, para festejar a diversidade é pouco diante da realidade de nossa sociedade. Eu acredito que ao escolhermos um determinado dia estamos limitando, determinando. Direitos iguais para todos os seres humanos! Sempre!
O ser humano é engraçado – ironizando para não cair num pessimismo sem fim – abre algumas concessões e se fecha em outras. Mas no caso não o ser humano, mas a humanidade em si, envolvendo todos os seus aspectos e âmbitos históricos.
O terror aplicado aos coreanos em São Paulo, pela “Mooca Chapa Quente” (MCQ), uma gangue com mais de 60 adolescentes e jovens, ilustra o problema principal: do preconceito com as diferenças. O modus operandi da MCQ, segundo o jornal O Globo, “consiste em pichar seus símbolos nas casas de orientais e descendentes para sinalizar que a residência é o próximo alvo. O sinal verde para o assalto também pode ser detectado por um plástico ou pano amarrado no portão da casa. Os criminosos espancam vítimas, ameaçam atear fogo a seus corpos e exibem orgulhosos o dinheiro roubado e o armamento do grupo em sites da internet”. O que mais me assusta é essa necessidade de exibir como um troféu os crimes, a internet tem a função de podium para aquele que mais-violência dissipar.
Portanto vamos refletir, vamos analisar a situação proposta pela semana da diversidade. Temos que ser mais HUMANOS, temos que nos unir, amai uns aos outros, no sentido extremo de amor pleno. Coreanos, gays, deficientes, brancos, negros, índios, todos juntos! Não importa a etnia, o credo ou a opção de vida, nem a condição de vida.
Muitos falam que em Bauru tivemos, no último domingo, a “parada gay”. No entanto, eu acredito que a proposta desta mobilização é muito mais abrangente. Porque o título é “Parada da Diversidade”, no sentido amplo, no sentido de respeitarmos aquilo que a sociedade civil estabeleceu como diferente.
Porque devemos ser de determinada forma? Como estabelecemos os nossos padrões? O que é certo ou errado? Todas as respostas estão calcadas na História, assim mesmo com “H” maiúsculo, uma história da História universal, às vezes, como no caso de Hegel, personificada no Espírito Absoluto. Analisando todo o percurso cultural-histórico temos o preconceito como algo enraizado. Essas barreiras têm que ser vencidas. Temos que pôr em prática a nossa Razão, não uma razão instrumental, tecnificada, mas sim uma Razão que englobe todo o caráter emancipatório do homem. Porque se não focarmos nessa Razão (maior), podemos cair novamente num estado de exceção, onde o fascismo reina. Onde a violência é o motor que une todos num clima de terror.
Não podemos voltar aos tempos da 2ª Guerra Mundial, onde o preconceito pelo diferente trouxe tantas dores. A ordem é amar, sempre. Amar o ser humano em geral, não restringir, não particularizar. Não adianta nos fecharmos em gangues, tribos ou turminhas, temos que nos relacionar com o mundo e com todos!

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Lixo: para onde vamos mandá-lo?

Você já parou para pensar para aonde vai todo o lixo que produzimos? Se fossemos ingleses seria fácil esta questão. Era só mandar tudo num container para algum país da América do Sul, mais especificamente, o Brasil. Na verdade não foi apenas um container, mas sim 56! Ou melhor, 900 toneladas de lixo comum. Leia-se camisinhas e fraldas usadas, seringas, restos de comida... Dizem que havia até brinquedos com recados para fossem dados às crianças brasileiras. Simplesmente um absurdo, que só poderia partir de uma monarquia decadente. Vale lembrar que isso parece ser uma prática comum dos países da Europa, que mandam seu lixo para a África e Ásia. E não é só lixo, propriamente dito, que eles andam mandando pra outros países… tem o “lixo” de gente também.
O mundo está inflado, super populoso e, ainda por cima, sem consciência ecológica.
Mas a culpa é de quem?
A culpa é do sistema capitalista de produção, que só sabe incentivar o consumo e a produção desenfreada.
O problema todo teve início quando a burguesia comprou a sua liberdade e saiu por ai desbravando mares, conquistando territórios e ampliando mercados. Com o aumento da produção surgem as fábricas, com as fábricas surgem o proletariado. E toda uma lógica de consumo.
Taylor em seu livro, Princípio de administração científica, propõe a racionalização da produção, com a finalidade da produção em massa. Já Henry Ford introduz a linha de montagem na produção automobilística, que século XX se expande, a partir dos EUA, para todos os ambientes, visando mais eficiência.
O mundo só pensava em produzir para o consumo desenfreado. Sem consciência das agressões ambientais.
Ainda hoje, no século XXI, temos a ilusão de uma consciência ambiental. Separar o lixo ainda é uma luta, as pessoas têm preguiça. Ao invés de consertar um aparelho quebrado preferimos jogar fora (mas aonde é o fora?) e comprar um novo, porque a lógica capitalista afirma que é mais barato comprar um aparelho tecnológico novo, do que consertar. Realmente, arrumar fica caro, é mais vantajoso ter um aparelho novo com nova tecnologia, mas é vantajoso para quem? Aposto que para o nosso planeta e para os técnicos em conserto não.
Há duas semanas uma equipe de cientistas e ambientalistas partiu de São Francisco, nos EUA, em busca do que alguns chamam de "A Ilha do Lixo" – um redemoinho de lixo no Oceano Pacífico formado por mais de seis milhões de toneladas de plástico. O amontoado de lixo flutua à deriva entre a Califórnia e o Japão.
A que ponto chegamos? É como arrastar para debaixo do tapete a sujeira. Não temos aonde por em terra, joga-se no mar.
Segundo o site portaldomeioambiente.org.br, “o redemoinho foi descoberto em 1997 pelo oceanógrafo Charles Moore. Ele ignorou os alertas de não passar pela região, onde faltam ventos e correntes, e acabou descobrindo o acumulado de lixo. Durante a viagem, o oceanógrafo encontrou pedaços de garrafas, sacos plásticos, seringas e uma variedade enorme de outros objetos de plástico em vários estados de conservação, já que, devido à ação do sol e dos ventos, o material se desintegra em fragmentos pequenos que flutuam durante anos, obedecendo às correntes marítimas”.
Só para termos dimensão do lixo que está lá. Ele é duas vezes maior do que a superfície do estado norte-americano do Texas. É muito lixo!
Mais de uma década descoberto e ninguém fez nada para resolver o gigantesco problema. Porque o lixo está em águas internacionais, ou seja, não é do governo de nenhum país. Mas isso não significa que não influencie todos os países do mundo. Peixes estão morrendo, águas são poluídas, e o problema é de quem? Vamos olhar com mais carinho e consciência para o nosso lar, o nosso planeta!

domingo, 30 de agosto de 2009

Tô Só

(Crônica de Hilda Hilst para o "Correio Popular" de Campinas-SP)

Vamo brincá de ficá bestando e fazê um cafuné no outro e sonhá que a gente enricô e fomos todos morar nos Alpes Suíços e tamo lá só enchendo a cara e só zoiando? Vamo brincá que o Brasil deu certo e que todo mundo tá mijando a céu aberto, num festival de povão e dotô? Vamo brincá que a peste passô, que o HIV foi bombardeado com beagacês, e que tá todo mundo de novo namorando? Vamo brincá de morrê, porque a gente não morre mais e tamo sentindo saudade até de adoecê? E há escola e comida pra todos e há dentes na boca das gentes e dentes a mais, até nos pentes? E que os humanos não comem mais os animais, e há leões lambendo os pés dos bebês e leoas babás? E que a alma é de uma terceira matéria, uma quântica quimera, e alguém lá no céu descobriu que a gente não vai mais pro beleléu? E que não há mais carros, só asas e barcos, e que a poesia viceja e grassa como grama (como diz o abade), e é porreta ser poeta no Planeta? Vamo brincá
de teta
de azul
de berimbau
de doutora em letras?
E de luar? Que é aquilo de vestir um véu todo irisado e rodar, rodar...
Vamo brincá de pinel? Que é isso de ficá loco e cortá a garganta dos otro?
Vamo brincá de ninho? E de poesia de amor?
nave
ave
moinho
e tudo mais serei
para que seja leve
meu passo
em vosso caminho.*
Vamo brincá de autista? Que é isso de se fechá no mundão de gente e nunca mais ser cronista? Bom-dia, leitor. Tô brincando de ilha.

* Trovas de muito amor para um amado senhor - SP: Anhambi, 1959.

(Segunda-feira, 16 de agosto de 1993)
“Irreconhecível
Me procuro lenta
Nos teus escuros.
Como te chamas, breu?
Tempo.”
Hilda Hilst: Da Morte, Odes Mínimas

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

Um quilo de sal

Por que muitas vezes nos sujeitamos às situações que nos causam desconforto? Será falta de personalidade em dizer não a tais situações?
Ela, por muito tempo, não sabia como agir... Segurava o desconforto. Angustiada, tentava não estourar. Mas sempre estourava, porque aquilo não fazia parte do seu universo. Ela não suportava mais o desgaste que ele provocava em sua vida. Não queria assumir que o melhor a fazer era jogar tudo para o alto e o mandar para “o raio que o parta”! Tomar uma atitude sempre é difícil, doloroso. Doloroso para quem toma a atitude, doloroso para quem toma o pé na bunda.
Mas quando a situação é insustentável não se tem muita escolha. Mudar é quase impossível. O mundo se tornou muito individualista, ninguém quer ceder, ninguém quer perder. Nesse grande jogo as regras não são claras, e o coração sempre sai ferido.
O que mais impressiona os sentimentos dela é a falta de sentimentos dele. Ele não tem caráter, não sabe que mentir compulsivamente é uma patologia.
Ela, as vezes estando com ele é triste (mesmo ele afirmando que nunca faz por mal). Está cansada de ouvir que ele é imaturo, parece que todos tentam encobrir o desvio de caráter dele. Ela tenta enxergar coisas boas. Mas as ruins acabam se sobressaindo em alguns momentos.
O que ela pode fazer? Qual atitude tomar em relação a ele?
Seria melhor dar um fim em tudo, seria o mais ajustado, o mais racional. Mas ela sofre, com as coisas do coração não há razão, não “rola” teorizar muito. É paixão, sentimento instintivo, bem-querer. O racional não se aplica ao amor.
A felicidade existe entre eles, apesar de não ser constante, mas o que é constante? O que é certo ou errado? Quem é dono da verdade absoluta para afirmar ou negar com certeza plena? Eles deveriam ser mais unidos em meio a esse mundo de desunião. Eles são jovens – e alguns podem até dizer – que são inexperientes. Mas eles têm esperança em um dia morarem juntos. Acreditam profundamente que a culpa da desunião é a diferença geográfica.
* * *
(Só mais uma taça de vinho, já estou terminando essa história, que pode ser minha como pode ser sua).
* * *
Ela é astuta, ele é de touro. Ele não tem regras, ela é metódica. Ambos são geniosos. E nenhum gosta de café. Mas acreditam que combinam na diferença. O relacionamento é como uma relógio analógico, você tem que conseguir acertar os ponteiros, apesar deles não serem iguais, eles tem que caminhar juntos (tanto os ponteiros como o relacionamento). Ou como um amigo cearense me disse uma vez: “manter um relacionamento é comer um quilo de sal junto!”.
O ser humano é um ser social, por natureza vive em comunidades se relacionando, sempre. Aí notamos como é antinatural o homem querer se individualizar cada vez mais, se isolar, e ficar sem uma parceira, ou parceiro. O caminho é o da compreensão, da tolerância, da partilha, da amizade sincera. Sim, amizade! Porque não existe um relacionamento amoroso sem você ser amiga (o) do seu amado (a). Enfim, companheirismo no sentido pleno da palavra.
Mais uma coisa eu soube por ai, resumindo toda esta história... Ela o ama, e ele a ama também. Morrem de saudades e de ciúmes. Outro dia me falaram que eles planejam se ver, sempre que possível, e continuar juntos.
P.S. 1: Esta é uma história fictícia. Qualquer semelhança é mero acaso.
P.S. 2: Houve um erro de digitação no texto da semana passada, é Aldous e não Adous, “comi” o “l”.

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Os admiráveis reality shows

Na reta final, o reality show da Rede Record, A Fazenda, prova que a fórmula de agrupar pessoas reais e não personagens de um enredo ficcional dá certo.
Mas será que o enredo é realmente ficcional? Os cortes e as edições não privilegiam alguns? Há quem diga que o ator, ex-global, cantor (?), Dado Dolabella é o favorito ao prêmio de um milhão de reais. Segundo o jornal Extra On Line, “a família do ator decidiu pagar para pessoas votarem pela permanência dele no programa numa lan house do Rio. Os votos pela web tem o mesmo peso dos feitos por SMS e pelo telefone.” Quando da disputa de Dado com Pedro Leonardo e Danni Carlos.
O engraçado é quando termina o programa ou se é eliminado, o discurso é sempre o mesmo, para todos o importante é participar. Ter uma experiência de vida única num programa televisivo! Mas o que vemos é o interesse pelo dinheiro, e pela fama (que também pode trazer dinheiro).
Mas se você pensa que isso é coisa de 10 anos para cá, está enganado.
O fenômeno dos reality surge nos anos 1970, nos Estados Unidos, quando uma série – An American Family – retrata o divórcio, e a declaração de homossexualismo por parte de um dos filhos. (Já podemos notar como o efeito surpresa, ou melhor, revelação dá o toque especial deste formato). Nos anos 1980 outros programas surgem, como COPS e The Real World (Na real, MTV). Em 1999 John de Mol patenteia o formato Big Brother. E aí a história nós conhecemos... Survivor ou No Limite, é só adaptar para o país e seguir a mesma fórmula! A TV brasileira importou vários reality: Aprendiz, Supernanny, Esquadrão da Moda, Troca de Família, Astros, Ídolos, 10 anos mais jovem... Tem para todos!
E qual é o motivo de tanto sucesso? Faço o mesmo questionamento em relação ao Orkut. Analisado chega-se a conclusão de que o Orkut é um reality com proporções menores, mas o mecanismo de superexposição é o mesmo. Parece-me que as pessoas sentem necessidade, ou até mesmo, carência em suas relações humanas reais. Desta forma projetam-se em um avatar ou em um profile, para suprir necessidades. Com os programas em formato reality é a mesma coisa, há essa projeção, porque os participantes são pessoas reais, que mostram a sua realidade. Fica mais fácil, a partir desta ideologia, prender a atenção do telespectador.
O livro do escritor, hoje considerado cult, Adous Huxley, O Admirável Mundo Novo (1931), retrata através de uma “fábula” futurista uma sociedade completamente organizada, sob um sistema científico de castas. Não há vontade livre, abolida pelo condicionamento; a servidão seria aceitável devido a doses regulares de felicidade química e ortodoxias e ideologias seriam ministradas em cursos durante o sono. Olhando o presente, podemos imaginar um futuro semelhante em termos de avanços tecnológicos. Hoje a sociedade está organizada e fundamentada em torno dos aparatos tecnológicos, temos câmeras públicas em ruas, estradas, escolas, elevadores. E isso é demonstrado no livro. Então não é de se espantar achemos normal um bando de gente confinada, como gado mesmo, sendo filmada. Porque em nosso dia a dia já estamos sendo monitorados, e dê certa forma, também estamos confinados. A diferença está apenas na dimensão do espaço de confinamento.
Em um mundo no qual as pessoas se preocupam com assuntos alienantes e de pouco conteúdo emancipatório, não é de se assustar que no Top 10 da Internet quem está no topo das buscas é a Mulher samambaia, seguido do resumo das novelas. Do quase reality Edir Macedo e Campeonato Brasileiro. Do sonho: resultado da Mega Sena. Do fetiche: Juliana Paes. Das buscas funcionais como, futebol ao vivo e Climatempo.com.br. E as lanterninhas do Top 10, Ashley Tisdale (nunca tinha ouvido falar, dizem que é cantora) e Madonna (que nas últimas de net está se agarrando ao seu Jesus). Mais uma vez me pergunto e jogo para vocês se questionarem: Qual será o futuro desta sociedade?

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

Agir intencionalmente bem

Gripe suína, dias dos pais, indulto, volta às aulas, Sarney... O que fazer? Sobre o que falar? O que realmente nos importa? Esta semana assisti em duas emissoras diferentes uma coisa que me chocou – deve ser porque eu tenho muito nojo ou porque é nojento mesmo –, africanos comem ratos, inteiros, tipo espetinho de rato! Por isso repito: o que nos importa?
O sistema econômico mundial não funciona. Muitos têm uma vida digna, milhares não sabem o que é dignidade. O ser humano está se esquecendo da própria humanidade. Não nos importa mais quem é o outro, ou qual é a necessidade do outro.
O filósofo alemão Immanuel Kant no livro Fundamentação da Metafísica dos Costumes fala da moral, do agir moral, do que é eticamente correto (é claro que não é um livro tipo manual, como agir moralmente bem em cinco minutos). Grosso modo o livro trata destas questões.
Kant acredita que ter boa vontade é a condição de toda a moralidade. Não importa se você saciou a fome de dez pessoas ou de uma, o que importa é a boa intenção. A vontade é boa quando agimos por dever, e não conforme o dever (que pode não ser moralmente boa). Quando uma pessoa age conforme o dever, ela pode estar movida por interesses egoístas. É o caso do vendedor que é honesto com os clientes visando apenas o lucro. Ele não engana, não rouba, não viola as leis. Exteriormente e legalmente a sua ação está dentro daquilo que deve ser feito. Mas o que está por detrás deste ato é promover o seu próprio negócio. Segundo Kant ele não agiu moralmente bem, porque, a sua ação foi apenas um meio para atingir um fim pessoal.
O valor moral de uma ação está sempre na intenção, logo, moralidade e legalidade – para Kant – não são sinônimos. Explicando: se a moralidade são as ações realizadas por dever, a legalidade engloba as ações que estão em conformidade com o dever, e que podem muito bem terem sido realizadas com fins egoístas. Para o filósofo, o que deve determinar o agir é a lei moral. Essa lei moral é constituída pelos nossos valores morais. Não se trata de saber se devo mentir ou não devo. Trata-se de encontrar o que está na base da minha opção pela mentira ou pela honestidade.
"Age apenas segundo uma máxima tal que possas ao mesmo tempo querer que ela se torne lei universal", ou seja, não faça nada que não possa ser adotado como exemplo para o mundo. Assim, a fórmula kantiana não nos diz para agirmos desta ou daquela maneira, não nos dá o conteúdo da lei, apenas nos indica a forma como devemos agir.
Contudo, nos dias atuais notamos que está cada vez mais distante de nossa realidade seguir uma vida moralmente plena. Agir conforme o dever, apenas porque tem que se agir desta forma acaba sendo a regra. Não usamos a nossa Razão, e nos esquecemos dos valores morais.
Infelizmente a maioria das pessoas só se interessa em ajudar o próximo visando um meio para obter algo. Com isso o ser humano acaba sendo instrumentalizado. Ele é um degrau a ser subido para se chegar ao topo, ao tão esperado sucesso.
A regra do dia é ser bem sucedido, ganhar bem, mesmo que para isso precise passar por cima de outras pessoas. Desta forma, não vemos o outro como um ser igual, um ser humano. Vemos como um objeto, uma coisa. Assim, ele acaba coisificado pelo sistema, e ao ser coisificado, vira um número, um dado nas estatísticas.
E qual a solução para este fim terrível? A meu ver, temos que ter uma boa educação e uma boa formação moral, com valores e virtudes bem definidos, para termos condições de identificar as mazelas de nossa sociedade vigente. O começo para a mudança é prestar mais atenção naqueles que estão ao nosso lado, e assim por diante, como em uma corrente.